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CONCELHO DE TÁBUA APÓS O TERRAMOTO DE 1775

Um artigo publicado pelo Historiador Fernando Pais que nasceu em Mouronho, concelho de Tábua. 


Muito se sabe sobre o que aconteceu em Lisboa há 264 anos, agora podemos ficar também a conhecer o que aconteceu num concelho beirão a 250 quilómetros da capital.


O terramoto que Deus mandou para castigo de uns e aviso de outros, despertando os pecadores mais adormecidos e abrandando os corações mais obstinados.” Um abanão do Além às consciências de aquém, assim interpretou António Brandão, prior de Covas, ao que se passou na sua paróquia no dia de Todos os Santos de 1755.

Nesse dia de profundo simbolismo religioso estava a grande maioria dos nossos conterrâneos de outrora nas suas igrejas paroquiais, quando o recolhimento foi bruscamente interrompido por um fortíssimo ruído, parecido com um trovão, e quase simultaneamente tudo começou a tremer com uma tal violência, “que parecia que ia acabar o mundo”, como escreve João de Sousa Machado, vigário de Midões.

Até nós chegaram os testemunhos, em forma de resposta a inquérito, de nove das quinze paróquias do atual concelho de Tábua, que nos permitem inferir como os habitantes dessas terras sentiram e viveram um fenómeno cujas causas desconheciam e que facilmente remeteram para a censura divina a uma menos correta vivência terrena.

Quando começou o terramoto? Uma pergunta simples, mas a qual só encontrava resposta no único recurso disponível, o relógio de sol (o acesso ao relógio mecânico estava ao alcance de muito poucos). Com a terra a abanar consultar as horas não esteve certamente nas necessidades de ninguém, sendo o facto principal para a ausência de unanimidade nos relatos dos párocos acerca do início do abalo, que convergem para um período entre as nove e nove e meia da manhã.

Contabilizar a duração do sismo enfrentou as mesmas dificuldades, ao pároco de Ázere pareceu meia hora, aos de Covas e de Sinde oito minutos, ao de Midões nove minutos, um quarto de hora aos restantes: Covelo, Espariz, Mouronho, Pinheiro de Coja e São João da Boavista.

As duas réplicas sentidas nesse mesmo dia, por serem mais curtas e por o povo se encontrar a rezar, foram medidas por quantas orações se rezaram durante os abalos: dois Pais-nossos, duas Ave Marias, um Credo.


O tremor inicial sentiu-se de norte para sul, assim o dizem a quase totalidade dos párocos, como José Antunes Proença, cura de Covelo, o movimento era de sul para norte, pois “se viu pelo gesto uma abertura no arco cruzeiro, que no fim do terramoto ficou fechado como dantes”. Apenas a Lourenço Vasques de Paiva, prior de Mouronho, pareceu ser de nascente para poente, por ser essa a orientação do movimento da cruz que existia no frontispício da igreja.

Todos se referem ao enorme estrondo, parecido com um trovão, que antecedeu o terramoto e “que continuou mesmo se sossegando o abano das casas”, segundo os testemunhos do prior de Espariz e do cura de Pinheiro de Coja.


A perceção e a reação ao fenómeno não são iguais, muitos saíram das igrejas para os respetivos adros, outros ficaram dentro do templo, como no Covelo e em Covas, onde ficaram estáticos e sem acordo, mas como tementes a Deus e “cuidando da sua salvação logo procuraram fazer um Ato de Contrição”. A mesma oração rezaram os habitantes de Pinheiro de Coja, únicos que ainda não se encontravam na igreja, mas que a ela logo ocorreram.

O relato de Manuel da Fonseca, prior de Ázere, encerra uma explicação sobrenatural que vai ao encontro da génese do pavor real da gente comum: “os fiéis se levantaram e saíram da igreja, eu não pensei logo ser terramoto, mas sim o Demónio que vinha impedir a Oração, saí e fiz recolher o povo e abri o sacrário e cantámos o hino Te Deum laudamos”.

Felizmente a violência do sismo não se refletiu em danos pessoais e materiais, se os primeiros são inexistentes os segundos, de pouca monta, são transversais a todas as paróquias e para que muito contribuiu o tipo de habitação existente, maioritariamente térrea com muito poucas casas assobradadas (todos os párocos dizem que não há edifícios notáveis).


Não é de estranhar então que encontremos os maiores estragos em edifícios onde existe um maior pé-direito, nas igrejas. Na de Midões abriu-se uma grande fenda na capela-mor, em São João da Boavista caiu uma coluna de um retábulo, em Pinheiro de Coja caíram duas bolas de pirâmides, uma do frontispício da igreja e outra da capela de Santo Cristo. Em Mouronho, para além das duas grandes fendas junto à cantaria da porta da capela de Nossa Senhora da Conceição, também a capela-mor da igreja ficou com o seu emadeiramento bastante danificado. No Covelo a imagem de São Caetano caiu do pedestal, mas ficou de pé no altar “não tendo perigo nenhum”.


Se da pedra houve pouco que se noticiasse, da água muito se escreveu. Durante cinco horas as fontes que não secaram turvaram, em Covas a água era branca como leite, em Midões as que secaram voltaram a dar água e com mais abundância a 10 de dezembro, quando se sentiu um outro forte sismo.

As ribeiras de Pinheiro de Coja e de São João da Boavista “perderam as suas correntes fazendo a água ondas e abanações”.

Os rios Alva e Mondego tiveram ondulações tão fortes que para além de atirar as enfurecidas águas para as margens, permitiram ver por momentos os seus leitos, “vendo-se as areias em alguns poços a que os pescadores chegavam a mergulhar com dificuldade” afiança o pároco de Mouronho.


Em Espariz foi o calor a manifestar-se. No decorrer do terramoto estava o prior Francisco Correia com outras pessoas no adro da igreja quando tiveram que fugir para junto à fonte próxima pois “exala da terra tanta quentura e cheiro a enxofre, que aquecemos e penetrou a quentura as solas dos sapatos e a este passo foi que entrou em nós maior susto e perturbação”.

Em meados do século XVIII, no interior beirão, com um quotidiano fortemente gerenciado pela religião, é com naturalidade ser sob o seu manto que encontramos a população a tentar aplacar os tremores da terra e os temores da alma.


A confissão foi o primeiro e preferido meio da população para se reconciliar com o divino, em São João da Boavista os três padres locais confessaram rapidamente as 428 pessoas, maiores de sete anos, existentes na freguesia, também em Espariz o povo recorreu em massa à confissão, havendo mesmo necessidade de se deslocarem para lá padres de outras freguesias para confessar os 316 habitantes e em Pinheiro de Coja quase todos os 286 moradores recorreram também ao confessionário.

Em todas as paróquias se fizeram jejuns, preces e muitas procissões, que saindo da matriz percorriam a paróquia, como numa reconquista e acalmia do espaço pela oração. Em Ázere, por exemplo, fizeram-se seis procissões de penitência, duas à capela da Nossa Senhora da Graça e quatro à Nossa Senhora da Paz: “onde íamos descalços, não só os sacerdotes, mas também o capitão José Castanheda com uma cruz e corda ao pescoço e o povo também descalço”.

Na paróquia de Covas o prior para interceder junto à justiça divina, “tão excitada contra os filhos de Adão”, e para além dos doze dias de jejum em treze semanas, combinou com os seus paroquianos, que em casa, todos os dias, a determinado toque do sino, se pusesse toda a família de joelhos e se rezasse o terço.


A vida lenta e impreterivelmente voltou ao normal, mesmo que nos meses seguintes os quotidianos tremores não deixassem de lembrar a estes tabuenses o horror passado no dia de Todos os Santos.


ARTIGO: Historiador Fernando Pais

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